Parou de usar a caneta emagrecedora e voltou a engordar? Entenda por que isso acontece

Redação

O emagrecimento com medicamentos injetáveis pode trazer resultados significativos, com redução do peso, melhora dos indicadores de saúde e aumento da autoestima. No entanto, após a interrupção do tratamento, muitas pessoas enfrentam um novo desafio: evitar o retorno dos quilos perdidos.

Um compilado de 48 estudos publicado neste ano na revista científica eClinicalMedicine estimou que os pacientes recuperaram, em média, aproximadamente 60% do peso perdido no primeiro ano após a suspensão de medicamentos utilizados no tratamento da obesidade.

Conhecido popularmente como “efeito rebote”, o fenômeno não significa necessariamente que o medicamento tenha provocado alterações no metabolismo responsáveis pelo ganho de peso. Segundo Juliana Lages, médica com pós-graduação em Endocrinologia e Nutrologia e professora do IDOMED, o reganho precisa ser compreendido no contexto da obesidade, uma doença crônica que pode apresentar recorrência.

“É importante esclarecer que isso não significa que o medicamento alterou o metabolismo ou fez o organismo passar a engordar mais. Na realidade, estamos retirando um tratamento que estava ajudando a controlar uma doença crônica e recidivante, que é a obesidade”, explica a especialista.

Canetas emagrecedoras despertam interesse dos brasileiros

Medicamentos como semaglutida e tirzepatida ganharam espaço nas discussões sobre emagrecimento e saúde. Um levantamento divulgado em setembro, com base em pesquisas realizadas no Google, apontou que três dos medicamentos mais procurados somaram cerca de 2,5 milhões de buscas mensais entre agosto de 2025 e julho de 2026. Ao longo de um ano, foram quase 30 milhões de pesquisas relacionadas aos três produtos.

A popularidade dessas substâncias também aumentou as dúvidas sobre os efeitos da interrupção do tratamento e as estratégias necessárias para manter os resultados.

De acordo com Juliana Lages, durante o uso dos medicamentos, mecanismos relacionados à fome e à saciedade são modificados. Com isso, o paciente tende a se sentir satisfeito com porções menores de alimentos e a apresentar redução do impulso de comer.

“Quando a medicação é retirada, esses efeitos farmacológicos desaparecem progressivamente”, explica.

Além disso, o próprio emagrecimento desencadeia adaptações fisiológicas. Após a perda de peso, o organismo pode intensificar os sinais que estimulam a ingestão de alimentos e reduzir parcialmente o gasto energético.

“Quando paramos a caneta, temos duas coisas acontecendo simultaneamente: retiramos um medicamento que ajudava a controlar fome e saciedade e permanecemos com um organismo que passou por adaptações decorrentes do emagrecimento”, afirma.

Reganho de peso não é falta de força de vontade

A recuperação de parte do peso perdido pode gerar frustração, principalmente entre pessoas que passaram meses seguindo o tratamento e acompanhando os resultados na balança.

No entanto, a especialista alerta que o reganho não deve ser interpretado apenas como falta de disciplina ou esforço individual. O processo envolve mecanismos biológicos que influenciam o apetite, a saciedade e o gasto energético.

“A recuperação de peso após a suspensão é um fenômeno biológico esperado em uma parcela importante dos pacientes, mas não deve ser interpretado simplesmente como falta de disciplina ou força de vontade”, ressalta Juliana.

Por isso, o acompanhamento profissional e a adoção de hábitos sustentáveis são importantes durante todas as etapas do tratamento, inclusive quando existe a possibilidade de interromper o uso da medicação.

Como manter o peso depois de parar a caneta?

O planejamento da manutenção deve começar antes da suspensão do medicamento. Alimentação equilibrada, atividade física regular, sono de qualidade, controle do estresse e acompanhamento médico e nutricional são fatores que contribuem para a continuidade dos resultados.

A decisão de interromper o tratamento também precisa ser individualizada. Entre os aspectos avaliados estão a quantidade de peso perdida, a composição corporal, a presença de diabetes ou de outras doenças associadas e o risco de recuperação do peso.

Atualmente, não existe um protocolo universal que determine que todos os pacientes devam reduzir gradualmente as doses, em um processo conhecido como “desmame”, para evitar o reganho de peso. A conduta deve ser definida pelo profissional responsável, de acordo com as características e as necessidades de cada pessoa.

A orientação é não reduzir doses nem aumentar o intervalo entre as aplicações por conta própria. Para quem utiliza esses medicamentos no controle do diabetes, mudanças sem acompanhamento também podem comprometer o controle da glicemia.

Exercícios de força ajudam a preservar a massa muscular

Durante o emagrecimento, a atenção não deve se limitar aos números apresentados pela balança. A preservação da massa muscular também é importante para a capacidade funcional, a saúde metabólica e o gasto energético.

Nesse contexto, a prática regular de atividade física, especialmente exercícios de força, pode contribuir para preservar os músculos durante a perda de peso.

“Precisamos aproveitar o período em que o medicamento está auxiliando no controle da fome e da saciedade para construir uma rotina que possa ser sustentada no longo prazo. A medicação pode facilitar o processo, mas não substitui alimentação adequada, exercício, sono, acompanhamento profissional e mudanças comportamentais sustentáveis”, explica Juliana.

A especialista reforça que a manutenção precisa ser considerada desde o início do tratamento, e não apenas quando chega o momento da última aplicação.

“Mais importante do que simplesmente parar a caneta é planejar o que acontecerá depois dela. A manutenção do peso perdido também faz parte do tratamento da obesidade”, conclui.

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