Com o objetivo de revitalizar cerca de 40 m² de arte mural na cidade de Ananindeua – Pará, o projeto Muralismo – Entre Rios, chega com o tema “Defesa da Terra e o Bem Viver em Ananindeua”. Com duração de dois meses abrangendo oficinas, escuta ativa, mapeamento de muros e artistas e execução do projeto, esta terceira edição pretende ser veículo de ampliação e preservação da memória local, assim como contribuir na identificação histórico sócio cultural de seus moradores com a cidade em que vivem.
Destinada a lideranças comunitárias, quilombolas, educadores ambientais e recicladores, movimento de mulheres, artistas, produtores culturais e outros representantes do território Ananin, a oficina participativa “Defesa da Terra e Bem Viver em Ananindeua”, é o ponto de partida desta terceira edição. A oficina será realizada no próximo sábado, dia 22, no complexo CEU das Artes, no Conjunto Júlia Seffer, um dos símbolos da cidade.
De acordo com um de seus idealizadores, o designer e produtor cultural Livando Malcher, a participação da comunidade é fundamental na construção criativa da narrativa a ser abordada no mural. “É a voz da comunidade para a própria comunidade, retratada na obra. Esse formato cocriativo é usado desde a primeira edição e é o que diferencia o projeto. Mais do que só chegar e pintar uma parede com um tema particular, a comunidade tem participação ativa nessa construção e a oficina é onde fazemos essa escuta”, explica o produtor.
A ideia é que também seja criado um grupo virtual com os participantes da imersão, para acompanhamento e validações do processo. A arte mural será realizada em uma parede ociosa de grande visibilidade no município de Ananindeua
Também serão realizadas 8h de visitas guiadas aos murais, com professor de arte, intérprete de libras, estudantes de escola pública do município e indexação de fotos dos painéis na plataforma Google criando um tour virtual 360º.
Nascedouro nas águas
O projeto Muralismo Entre Rios nasceu em 2021, em Marabá, sudeste paraense, a partir de curadoria comunitária com os mais velhos do bairro do Cabelo Seco, onde a cidade nasceu, revitalizando 80m² de paredes de casas em via pública de grande circulação no bairro, lançando luz na sabedoria e cultura popular, homenageando lavadeiras, pescadores e coletores de castanha, pessoas que ajudaram na formação da cidade.
Em 2024 ocorreu a 2ª edição, novamente em Marabá, mantendo o conceito de curadoria comunitária, dessa vez na escola de ensino médio Plínio Pinheiro, com estudantes e professores, cocriando um conjunto de murais em paredes internas e externa da escola, revitalizando cerca de 180m² com arte monumental, num processo sensível e potente de transformação através da arte-educação e o senso de Bem Viver, tema que deu norte à realização.
Inspirado no movimento Muralista do séc. XX ocorrido na América Latina, onde a arte pública em grande formato foi utilizada como instrumento pedagógico, político e de fortalecimento de uma identidade regional e popular, o projeto foi nomeado na busca de aplicar estes mesmos ideais no contexto urbano de Ananindeua, o segundo município mais populoso do estado do Pará, com 530.598 habitantes, atrás somente da capital Belém.
“Em lugar onde não há atividades culturais, a violência vira espetáculo” (frase grafitada em rua de Governador Valadares (MG), em 2016. Segundo dados apresentados no Atlas da Violência 2021 (IPEA), Ananindeua figura dentre as cidades mais violentas do país, ocupando a 14ª posição, atingindo crianças, juventude, famílias e o meio ambiente.
Com esta premissa, os idealizadores do projeto , Clara Morbach e Ligando Malcher, acreditam que trazer a arte monumental para o espaço de via pública é uma oportunidade de percorrer o campo subjetivo dos observantes de forma rápida, através de elementos e significados que conectem o sentido, alcançando milhares de pessoas cotidianamente, e objetivamente através das visitas guiadas com estudantes do município.
“Esta é uma forma de lançar luz em práticas fundamentais para alcançarmos o estado de Bem Viver no município, entre outros, o protagonismo da população, a proteção e valorização às mulheres, bom convívio familiar e comunitário, proteção à infância e PCD’s, valorização da educação, valorização de alimentos agroecológicos, valorização dos bens materiais e imateriais do município, proteção da natureza, terra, ar, rios, animais e plantas, cuidado aos idosos, respeito à diversidade, valorização de práticas e saberes da cultura popular e tradicional”, acredita Clara.
Além da oficina do dia 22, o projeto também manterá um calendário de atividades até o dia 30 de setembro de 2026, com novas oficinas, criação da pintura em muro da cidade, visitas guiadas, entre outros.
A oficina de lançamento da terceira edição de Muralismo Entre Rios – Bem Viver Ananin – será realizada de 9h às 16h, de forma gratuita, no CEU das Artes de Ananindeua.
