Medo da discriminação afasta população LGBTQIAPN+ dos serviços de saúde

Rarison Trindade
Especialistas alertam que o acolhimento e o respeito à identidade dos pacientes são fundamentais para ampliar o acesso da população LGBTQIAPN+ aos serviços de saúde - Foto: Divulgação/Freepik.

O acesso à saúde ainda representa um desafio para grande parte da população LGBTQIAPN+ no Brasil. Embora o Sistema Único de Saúde (SUS) garanta atendimento universal, o medo de sofrer discriminação durante consultas faz com que muitos pacientes adiem exames, abandonem tratamentos e deixem de procurar assistência médica.

Segundo especialistas, o problema vai além do preconceito explícito. Situações de constrangimento, falta de acolhimento e desrespeito à identidade de gênero acabam comprometendo a relação de confiança entre pacientes e profissionais de saúde, essencial para um atendimento de qualidade.

Para Jonas Moreira, psicólogo e assistente administrativo do Núcleo Técnico Regional de São Paulo do CEJAM – Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”, essa realidade é resultado de um histórico de exclusão social.

“Historicamente, a população LGBTQIAPN+ enfrenta uma invisibilidade estrutural que compromete o acesso aos direitos básicos. O receio de sofrer preconceito nos serviços de saúde faz com que muitas pessoas evitem o atendimento, ampliando as desigualdades no cuidado”, explica.

Omissão de informações prejudica diagnósticos

O medo do julgamento também interfere diretamente na qualidade da assistência médica. Para evitar situações constrangedoras, muitos pacientes deixam de informar dados importantes sobre orientação sexual, identidade de gênero, práticas sexuais ou relações familiares.

Segundo o especialista, essa omissão dificulta diagnósticos, compromete tratamentos e reduz a efetividade das ações de prevenção.

Além disso, a exposição contínua ao preconceito pode provocar o chamado estresse de minoria, caracterizado por sintomas como ansiedade, depressão, insônia, hipervigilância e sofrimento emocional.

Barreiras começam antes da consulta

Os obstáculos nem sempre aparecem dentro do consultório. Para Luana Silva, assistente social do Hospital Dia Campo Limpo, em São Paulo, o constrangimento muitas vezes começa ainda na recepção.

Uma das situações mais frequentes envolve o uso do nome social. Apesar de esse direito ser garantido pelo SUS desde 2009, pessoas trans e travestis ainda relatam receio de solicitar o reconhecimento da identidade de gênero durante o atendimento.

“Muitas preferem não pedir o uso do nome social por medo de não serem respeitadas ao longo do atendimento”, afirma.

Atendimento humanizado reduz desigualdades

Os especialistas reconhecem avanços nas políticas públicas voltadas à inclusão, mas defendem que a construção de um ambiente seguro depende de mudanças permanentes dentro das instituições de saúde.

Entre as medidas apontadas estão a capacitação contínua das equipes, protocolos de acolhimento, respeito ao nome social e garantia de sigilo das informações dos pacientes.

Para Luana Silva, o atendimento humanizado começa nos pequenos detalhes.

“Respeito, escuta qualificada e acolhimento desde a recepção fortalecem o vínculo de confiança e podem fazer toda a diferença na vida dessas pessoas”, conclui.

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