Calor intenso afeta rotina de trabalhadores no Pará e Amapá

Rarison Trindade
Calor intenso aumenta desafios para trabalhadores expostos ao sol no Pará e Amapá - Foto: Divulgação.

No Pará e no Amapá, o calor faz parte da rotina. Para quem trabalha muitas horas debaixo do sol, porém, os dias mais quentes podem tornar a jornada ainda mais difícil. É o caso de quem está em uma obra, trabalha em feiras e nas ruas, no campo ou passa boa parte do dia sobre duas rodas. Nessas atividades, água, pausas para descanso e proteção contra o sol são cuidados importantes, principalmente quando o trabalho exige esforço físico e longos períodos de exposição.

É justamente aí que o El Niño entra,  O fenômeno provoca alterações nos padrões de temperatura e chuva e pode favorecer períodos de calor mais intenso em algumas regiões. Ao longo da série especial produzida pelo Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (PA/AP), a reportagem mostrou diferentes reflexos dessas mudanças no mundo do trabalho. Neste último capítulo, o assunto chega à rotina de quem sente esses efeitos no dia a dia.

A experiência de quem já esteve do outro lado

Seu Ivo Borges Freitas trabalhou durante 20 anos como soldador. Hoje, é presidente da Força Sindical no Pará e vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas do Estado do Pará (Simetal-PA). A experiência de duas décadas em uma atividade que exige esforço físico e contato constante com fontes de calor se soma, hoje, ao que ele acompanha como representante sindical.

Na Região Metropolitana de Belém, Ivo chama atenção para as dificuldades que começam ainda no deslocamento. Há trabalhadores que enfrentam ônibus cheios e sem climatização e que, em dias de chuva forte, precisam passar por ruas e baixadas alagadas para chegar ao serviço.

No interior, há outras situações. Em áreas rurais, a falta de transporte público pode exigir longos deslocamentos por ramais. No verão, debaixo de sol forte; no período chuvoso, em trechos tomados pela lama ou pela água. Pescadores e ribeirinhos também enfrentam dificuldades quando o nível dos rios muda, enquanto trabalhadores da construção civil, vendedores ambulantes e motociclistas estão entre os profissionais mais expostos às condições do tempo.

Para Ivo, ainda há muito a avançar na proteção de quem enfrenta essas situações. “Há uma distância significativa entre as necessidades da classe trabalhadora e as condições encontradas no dia a dia. As jornadas permanecem exaustivas, sem acesso garantido à hidratação e sem intervalos para recuperação térmica”, afirma.

Ele defende medidas como acesso à água potável, pausas nos períodos de calor intenso, roupas de trabalho adequadas às altas temperaturas e regras para situações de emergência provocadas por eventos climáticos.

O que os trabalhadores têm a dizer

Parte dessas experiências foi ouvida durante a elaboração da Carta Climática dos Trabalhadores Paraenses. Em maio deste ano, três encontros realizados na sede do TRT-8, em Belém, reuniram representantes de categorias profissionais, pesquisadores e organizações da sociedade civil.

Renzo Mascote, Líder da Realidade Climática e Jovem Embaixador pelo Clima, participou dos encontros. Segundo ele, mesmo entre profissionais de áreas diferentes, alguns relatos eram muito parecidos. Muitos trabalhadores vivem em bairros afastados e dependem do transporte público. Por isso, o desgaste provocado pelo calor pode começar antes mesmo da chegada ao serviço.

“O estresse, inclusive o estresse térmico pelo calor, já começa quando a pessoa sai de casa”, afirma Renzo.

Nas conversas também surgiram questões relacionadas à moradia, ao saneamento, ao acesso à água e aos alagamentos. Para Renzo, ouvir essas experiências é importante porque o debate sobre mudanças climáticas na Amazônia também precisa considerar as pessoas que vivem e trabalham na região.

A Carta Climática dos Trabalhadores Paraenses nasceu desses encontros e foi idealizada por pelo desembargador Paulo Isan Coimbra da Silva Júnior, gestor regional do Programa Trabalho Seguro no TRT-8 e pelo Renzo o documento inclui temas como proteção social, participação dos trabalhadores e trabalho digno na discussão sobre as mudanças climáticas.

Trabalho seguro em dias mais quentes

Para o desembargador Paulo Isan, as medidas de prevenção precisam considerar as características de cada atividade. Além da temperatura, fatores como horário de trabalho, esforço físico, tempo de exposição, pausas e acesso à água devem ser observados.

“Todo trabalhador tem direito a um ambiente seguro e saudável. O meio ambiente onde ele executa suas atividades não pode ser causa de adoecimento. Se o calor se tornou um risco ambiental, e de fato se tornou, a empresa deve fazer a gestão adequada desse risco”, afirma o desembargador.

Na sede do TRT-8, em Belém, uma iniciativa voltada a quem passa boa parte do dia nas ruas oferece justamente alguns desses cuidados. O Tribunal disponibiliza um ponto de apoio para motoristas de aplicativo, com espaço para descanso, água gelada e banheiro. Para utilizar o espaço, basta se apresentar na portaria, devidamente identificado e vestido adequadamente, seguindo as regras de acesso às dependências do Tribunal.

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