O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) foi de -0,40%, ficando 0,46 ponto percentual (p.p.) abaixo da taxa registrada em julho (0,06%). No ano, o IPCA-15 acumula alta de 3,09% e, em 12 meses, de 4,24%, abaixo dos 4,52% registrados nos 12 meses imediatamente anteriores. Em agosto de 2025, a taxa foi de -0,14%.
O resultado de agosto foi influenciado principalmente pelas quedas nos grupos Habitação (-1,41% e -0,22 p.p.), Transportes (-1,00% e -0,20 p.p.) e Alimentação e bebidas (-0,57% e -0,12 p.p.). Os demais grupos ficaram entre o -0,20% de Vestuário e o 0,66% de Despesas pessoais.
A queda registrada no grupo Habitação (-1,41%) veio da contribuição de -0,26 p.p. da energia elétrica residencial, principal impacto negativo no índice geral, que recuou 6,25%, em decorrência da incorporação do Bônus de Itaipu, creditado nas faturas emitidas no mês de agosto.
Confira abaixo comentários de especialistas a respeito do macroindicador:
Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD
O IPCA-15 de agosto veio melhor do que o esperado, com deflação de 0,40%, contra uma expectativa de queda de 0,32%. É um resultado positivo para a inflação e levou o acumulado em 12 meses para 4,24%.
Mas, para entender a qualidade desse resultado, é preciso olhar além do índice cheio. A média dos núcleos subiu só 0,23%, tivemos nova deflação nos alimentos no domicílio e também nos preços livres. O índice de difusão subiu a 52%, mas é um nível ainda bastante confortável.
Boa parte da deflação, claro, veio de fatores pontuais, principalmente da energia elétrica, com o bônus de Itaipu, além da queda das passagens aéreas e dos combustíveis.
O ponto de atenção é que estamos praticamente chegando ao final de um período de sazonalidade favorável para uma inflação e uma difusão mais baixas. Então, daqui para frente, vai ser muito importante acompanhar se essa melhora vai continuar mesmo com a retirada desses efeitos temporários.
Para o Banco Central, o resultado é positivo e reduz um pouco a pressão sobre o cenário inflacionário. Mas ainda é cedo para comemorar uma vitória definitiva contra a inflação.
No mercado, a reação é de queda dos juros futuros, principalmente nos contratos mais curtos e médios, enquanto os investidores avaliam justamente se essa melhora terá continuidade.
A mensagem é: o IPCA-15 veio muito bom, os núcleos também ajudaram, mas agora começa o teste de verdade: saber se a inflação continuará desacelerando sem a ajuda dos efeitos sazonais e temporários.
Rafael Rondinelli, economista
O IPCA-15 de agosto registrou deflação de -0,40% (vs. 0,06% em julho), vindo abaixo da nossa expectativa (-0,30%). Com este resultado, a taxa acumulada em 12 meses cedeu de 4,52% para 4,24%.
O principal vetor de alívio no mês foi o grupo Habitação, que recuou -1,41% (vs. +0,97% em julho) e exerceu o maior impacto baixista (-0,22 p.p.). Em seguida, o grupo Transportes caiu -1,00% (contribuição de -0,20 p.p.), influenciado pela forte deflação em Passagens Aéreas (-13,30%). Alimentação e Bebidas manteve a trajetória de alívio e variou -0,57% (vs. -0,66% em julho), puxado pela deflação contínua em Alimentação no Domicílio (-0,97%). Na ponta oposta, as maiores pressões altistas vieram de Despesas Pessoais (+0,66%), Educação (+0,46%) e Saúde e Cuidados Pessoais (+0,40%).
Sob a ótica analítica, os Serviços desaceleraram para 0,07% (vs. 0,41% em julho), beneficiados pela queda das passagens aéreas. Por outro lado, os Serviços Subjacentes aceleraram para 0,50% (vs. 0,30% em julho), vindo acima das expectativas. A Média dos Cinco Núcleos avançou ligeiramente para 0,23% (vs. 0,21% em julho), enquanto o Índice de Difusão Geral subiu para 52,0% (vs. 48,2% anterior) e a Difusão de Serviços saltou para 72,3% (vs. 58,5% no mês anterior, mas abaixo do valor de ago/25: 78,5%).
Apesar da leitura cheia significativamente negativa (-0,40%), a composição qualitativa ainda mostra resiliência das pressões subjacentes e de serviços. O resultado mantém a trajetória desinflacionária, mas reforça a cautela necessária em relação à dinâmica dos núcleos e de serviços para os próximos passos da política monetária.
Natalie Victal, economista.
O IPCA-15 de agosto registrou variação de -0,40%, vindo abaixo da nossa projeção (-0,27%) e da mediana da Bloomberg (-0,32%). A surpresa foi puxada por passagem aérea e alimentação. Por outro lado, os serviços subjacentes aceleraram um pouco na margem, com o atenuante de que essa surpresa ficou concentrada em dois itens.
O grupo de industriais veio melhor do que o esperado e de forma mais generalizada. O impacto estimado para o IPCA fechado, via itens que se repetem, é de -5 bps. Também há potencial para revisão pra baixo devido a reajuste mais baixo que o projetado no preço de cigarros.
Avaliamos o dado como neutro, mas que, se algo, deveria levar a uma revisão ligeiramente para baixo da projeção de 2026.
Gabriel Pestana, economista.
O IPCA-15 de agosto veio mais baixo do que o esperado, com queda de 0,40% m/m, surpreendendo para baixo tanto nossa projeção (-0,29% m/m) quanto o consenso de mercado (-0,30% m/m). À primeira vista, a leitura parece favorável, sobretudo pela contribuição mais benigna de alimentação e alguns bens industriais. No entanto, parte importante da surpresa veio de itens voláteis, como passagem aérea, o que reduz o peso da melhora como sinal definitivo de desinflação mais disseminada.
O principal ponto de atenção segue em serviços. Apesar de o grupo cheio ter vindo abaixo do esperado, isso foi fortemente influenciado pela queda em passagens aéreas, item volátil, difícil previsão e menor relação estrutural com os fundamentos econômicos. Quando olhamos para medidas mais inerciais, a composição foi um pouco pior. Serviços subjacentes vieram acima da projeção, com surpresa altista relativamente espalhada, incluindo aluguel, condomínio e conserto de automóvel. Ainda assim, alguns segmentos mais ligados à demanda e ao mercado de trabalho, como alimentação fora do domicílio (bares e restaurantes) e serviços intensivos em mão de obra, continuaram mostrando arrefecimento, ainda que de forma gradual. A mensagem segue sendo de serviços ainda pressionados nas principais métricas anualizadas e dessazonalizadas.
O resultado melhora o cenário de curto prazo para a inflação, mas não elimina a necessidade de cautela. Os componentes mais sensíveis à oferta, como alimentos e parte dos industriais, reforçam um quadro mais benigno, enquanto os núcleos e serviços ainda sugerem resistência. Além disso, a parte benigna pode virar para cima conforme o conflito no Oriente Médio se estende, commodities aceleram e o choque climático do El Niño ainda está para entrar. Por isso, mantemos a leitura de que a inflação segue em trajetória de moderação, mas sem evidências suficientes para abandonar uma postura cautelosa.
Nesse contexto, nossa projeção segue sendo de um IPCA encerrando 2026 em 5,0%, mas com um número fechado para agosto mais favorável.
Para a política monetária, o IPCA-15 traz mais uma evidência de moderação na dinâmica inflacionária, corroborando nossa expectativa de corte de juros na reunião de setembro. Seguimos esperando manutenção para novembro, mas com probabilidade elevada de continuidade do ciclo de corte, a depender da virada da inflação e dados de atividade no quarto trimestre do ano.
