Aprender a ler e escrever na fase adulta tem significado muito mais do que adquirir conhecimento básico para dezenas de alunos atendidos por um programa de alfabetização realizado em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém. A iniciativa vem transformando rotinas, fortalecendo a autoestima e criando novas possibilidades de autonomia para pessoas que não tiveram acesso à educação no tempo regular.
Em pouco mais de um mês de aulas, participantes já conseguem reconhecer letras, escrever o próprio nome e lidar com situações cotidianas que antes representavam grandes dificuldades, como identificar preços, ler placas, acessar mensagens no celular ou utilizar o transporte público sem depender de terceiros.
Educação que resgata autonomia
Entre os alunos está Maria Assunção, de 60 anos, que atravessa a cidade utilizando quatro ônibus para não perder nenhuma aula. Natural do Maranhão e morando em Belém desde a adolescência, ela conta que precisou deixar os estudos ainda jovem para trabalhar e ajudar a família.
“Para as pessoas que não sabem ler, é muito difícil lidar com a vida no dia a dia. É muito difícil depender dos outros. Até para pegar um ônibus é complicado. Então eu resolvi tomar essa decisão e voltar a estudar”, relata.
A iniciativa também tem impactado estudantes universitários que atuam como voluntários e instrutores. Aluna de Pedagogia, Thalia Aleixo destaca que o contato com os adultos amplia sua experiência na área da educação.
“A didática para uma pessoa adulta é totalmente diferente. Nós precisamos entender a trajetória de vida de cada aluno e desenvolver estratégias que respeitem as experiências deles”, explica.
Movida pelo envolvimento com o projeto, Thalia convidou a própria tia para participar das aulas. A idosa, que passou grande parte da vida dedicada à família e sem acesso ao ensino básico, agora começa a desenvolver habilidades de leitura e escrita que ajudam nas tarefas do cotidiano.
Acolhimento e inclusão social
De acordo com a coordenação do curso de Pedagogia da unidade em Ananindeua, o município apresenta um dos maiores índices de analfabetismo do Pará, realidade que reforça a importância de ações voltadas à alfabetização de jovens e adultos.
Segundo a coordenação, o trabalho desenvolvido vai além do conteúdo em sala de aula e inclui acompanhamento próximo dos participantes, incentivo à permanência e ações de acolhimento para evitar a evasão.
O curso é gratuito e destinado a jovens, adultos e idosos com pouca ou nenhuma escolarização. As aulas acontecem duas vezes por semana, em Ananindeua, com duração de quatro meses.
A iniciativa integra um programa nacional de alfabetização desenvolvido pelo Instituto Yduqs em parceria com instituições sociais e organizações apoiadoras em diferentes estados brasileiros, ampliando o acesso à educação básica em regiões de maior vulnerabilidade social.
“Quando uma pessoa aprende a ler e escrever, ela amplia suas possibilidades de escolha, de participação social e de autonomia. O programa foi pensado para dialogar com a realidade dos alunos e ajudá-los a transformar a própria história”, destaca Cláudia Romano, presidente do Instituto Yduqs e vice-presidente do grupo educacional responsável pela iniciativa.
