O acesso à água de qualidade ainda é um desafio para milhões de brasileiros e impacta diretamente a saúde pública no país. No Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, o debate vai além da preservação ambiental e evidencia um problema estrutural: a desigualdade no saneamento básico.
Dados do Instituto Trata Brasil mostram que o Brasil registrou mais de 336 mil internações por doenças de veiculação hídrica em 2024. Apesar de concentrar cerca de 12% da água doce do planeta, o país ainda convive com falhas no acesso. Entre 33 e 35 milhões de pessoas não têm água potável, enquanto quase 90 milhões vivem sem coleta de esgoto. Ao mesmo tempo, cerca de 39,5% da água tratada é perdida antes de chegar às residências.
Nesse cenário, a água deixa de ser apenas um recurso natural e passa a ser um fator determinante para a saúde. Do ponto de vista biológico, o corpo humano depende diretamente da hidratação para manter funções vitais. A médica e docente do IDOMED, Karina Almeida, explica que a água atua na circulação sanguínea e no funcionamento dos rins. “A partir da circulação, a água também contribui para o sistema renal, pois é por meio dela que filtramos as impurezas do organismo. O líquido também é fundamental para a regulação da temperatura corporal”, afirma.
A ingestão insuficiente pode provocar efeitos imediatos e progressivos. Entre os principais sintomas estão tontura, queda de rendimento, estresse e hipotensão. Em casos mais graves, a desidratação pode comprometer diferentes sistemas do organismo. Crianças e idosos são mais vulneráveis. Os pequenos nem sempre conseguem expressar a sede, enquanto os mais velhos podem perder essa percepção, o que aumenta o risco de complicações como insuficiência renal.
Embora a recomendação de dois litros de água por dia seja amplamente difundida, especialistas alertam que o consumo ideal varia de acordo com características individuais. Fatores como idade, peso, nível de atividade física e condições climáticas devem ser considerados. “O ideal é que cada pessoa busque orientação profissional para uma recomendação adequada à sua realidade, pois cada paciente possui peso, idade, nível de atividade física e vive em locais com condições climáticas distintas”, pontua a médica.
Além da hidratação, a água é essencial para práticas básicas de higiene, que atuam diretamente na prevenção de doenças. A lavagem correta das mãos reduz a transmissão de infecções respiratórias, virais e parasitárias. A higienização de alimentos, especialmente os consumidos crus, também depende do uso de água segura.
Por outro lado, a ausência de saneamento básico amplia os riscos à saúde. Ambientes sem acesso à água tratada e sem coleta de esgoto favorecem a proliferação de doenças infecciosas. “A relação entre falta de água tratada, saneamento precário e doenças infecciosas é direta. Ambientes sem acesso à água potável e sem tratamento de resíduos tornam-se propícios à proliferação de doenças como verminoses e hepatites, além de infecções causadas por agentes químicos presentes na água contaminada”, destaca.
A qualidade da água utilizada no dia a dia também influencia diretamente o bem-estar. Não apenas a água para consumo deve ser potável, mas toda aquela utilizada em atividades domésticas precisa ser segura, desde o preparo de alimentos até a higiene pessoal.
Em escala coletiva, os impactos são ainda mais amplos. Regiões com infraestrutura adequada apresentam menores índices de doenças. Já áreas com acesso precário enfrentam ciclos persistentes de adoecimento, sobretudo entre populações mais vulneráveis.
Em regiões de clima quente e úmido, como a Amazônia, a atenção à hidratação deve ser redobrada. A perda de líquidos pelo suor exige reposição constante, mesmo sem a sensação de sede. Diante desse contexto, o Dia Mundial da Água reforça um alerta: garantir acesso à água de qualidade é uma questão de saúde, dignidade e sobrevivência.
