Curta paraense estreia em festival de cinema na França

Produção filmada em São Caetano de Odivelas leva o Boi de Máscaras ao maior mercado de curtas do mundo.

Matheus Freire
Cena do curta Te Vejo na Próxima Saída do Boi, gravado em São Caetano de Odivelas, que leva a tradição do Boi de Máscaras ao Festival de Clermont-Ferrand, na França - Foto: Reprodução/Short Film Market

O curta-metragem Te Vejo na Próxima Saída do Boi, dirigido por Keila Sankofa, fará sua estreia internacional no Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, na França, considerado a principal vitrine mundial dedicada ao formato curta-metragem. A exibição integra a programação Brasil com S – Embratur Short Films, com sessão marcada para o dia 5 de fevereiro, no Short Film Market, espaço estratégico voltado ao mercado audiovisual global.

A participação no festival, realizado entre 30 de janeiro e 7 de fevereiro, posiciona a produção paraense no centro das atenções de programadores, distribuidores e agentes internacionais, ampliando o alcance do cinema amazônico além das fronteiras nacionais.

Trajetória começa em Tiradentes

Antes de cruzar o Atlântico, o curta foi exibido na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em Minas Gerais, um dos mais relevantes eventos do cinema independente brasileiro. Reconhecida por lançar novos olhares e valorizar produções autorais, a mostra funcionou como a primeira grande vitrine nacional da obra.

Esse percurso inicial fortaleceu o diálogo do filme com a crítica e o circuito especializado, preparando o terreno para a estreia internacional.

Odivelas como cenário e personagem

As gravações ocorreram em setembro do ano passado, no município de São Caetano de Odivelas, no nordeste do Pará, durante a tradicional fugida dos Bois de Máscaras. Com 15 minutos de duração, o filme acompanha o encontro entre Luiz, carregador de aparelhagem vindo de Belém, e Bruna, coordenadora de um grupo de Boi, em meio aos festejos que tomam as ruas da cidade com música, dança e cores intensas.

A narrativa se desenvolve a partir do choque e da conexão entre mundos distintos, tendo a cultura popular como elo e motor dramático.

Boi de Máscaras: identidade em movimento

Manifestação cultural centenária, o Boi de Máscaras surgiu no início do século XX entre comunidades de pescadores e se consolidou como símbolo da identidade odivelense. O festejo junino é marcado pelo uso de máscaras artesanais, fantasias vibrantes, aparelhagens sonoras e pela ocupação coletiva das ruas em um ritual conhecido como “fugida do boi”.

Mais do que celebração, a tradição reúne religiosidade, memória e pertencimento, elementos que atravessam o filme e estruturam sua linguagem estética.

Cinema como ferramenta de valorização cultural

A produção é assinada pela Cine Diáspora, com roteiro de Rafael F. Nzinga e direção de Keila Sankofa. Para o roteirista, o curta utiliza o cinema como instrumento de valorização da diversidade cultural amazônica e de projeção internacional do território. “A narrativa nasce do afeto e da vivência local. O Boi de Máscaras organiza a vida comunitária e revela que a Amazônia também é espaço de invenção, romance e futuro”, afirma Nzinga.

Apoio institucional e projeção internacional

O filme foi contemplado na segunda edição do edital Brasil com S, da Embratur, voltado a projetos audiovisuais que promovem destinos, experiências e histórias da Amazônia por meio do cinema. A iniciativa associa cultura, identidade e turismo sustentável como estratégia de visibilidade internacional.

Segundo Denise Jancar, consultora de Distribuição do edital, a presença no Short Film Market representa um passo decisivo na trajetória do curta. Para ela, levar um filme do Norte do Brasil ao maior mercado de curtas do mundo é resultado de um trabalho coletivo que começa na produção e se estende à distribuição global.

Brasil em evidência no mercado de curtas

A participação brasileira em Clermont-Ferrand resulta de uma parceria entre a Associação Cultural Kinoforum, Spcine, Embratur e o Instituto Guimarães Rosa, por meio da Embaixada do Brasil em Paris. Ao todo, dez curtas-metragens brasileiros integram a programação do Short Film Market, evidenciando a diversidade da produção nacional.

Além disso, a Kinoforum coordena o estande Brazilian Shorts, espaço de promoção do audiovisual brasileiro e ponto de apoio para cineastas, com ações de networking e intercâmbio profissional.

Festival referência mundial

Considerado o segundo maior evento cinematográfico da França, atrás apenas de Cannes, o Festival de Clermont-Ferrand é referência mundial no formato curta-metragem. A edição mais recente reuniu 173 mil visitantes, mais de 4.100 profissionais e recebeu cerca de 9 mil inscrições de filmes de diversos países, consolidando-se como uma das mais importantes plataformas de circulação do cinema contemporâneo.

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