“Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, “Desafios para a valorização da herança africana no Brasil” e “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho do cuidado realizado pela mulher no Brasil” foram os temas das três últimas redações do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Este ano, a prova vai ser realizada nos dias 8 de novembro e 15 de novembro, quando estudantes do Ensino Médio realizam a primeira fase do Enem, que inclui 90 questões de Língua Portuguesa, Literatura, Língua Estrangeira, História, Geografia, Filosofia, entre outros temas, e a redação.
Todos os anos, professores(as) apostam em qual tema deve ser abordado na redação e em 2026 não foi diferente: em reportagem publicada pelo g1, mudanças climáticas, inteligência artificial, confiança na ciência, uso de redes sociais por crianças e adolescentes e poluição por microplásticos são alguns dos temas que devem estar no radar dos(as) estudantes.
Para ajudar os(as) alunos(as) a refletir de forma crítica sobre os temas apontados pelo g1, pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) IAmazônia compartilham sugestões sobre o que vale ter atenção à respeito das temáticas que podem ser abordadas na redação.
Usos éticos de inteligência artificial
O professor do Instituto Federal do Pará (IFPA) – campus Itaituba, doutorando em Engenharia Elétrica e integrante do LabCity, Romário da Costa Silva, apresenta algumas abordagens sobre inteligência artificial que podem cair na prova. Ele aposta em: mercado de trabalho, uso de IA em sala de aula, vieses de inteligência artificial, limites éticos e envenenamento de IA.
- Mercado de trabalho: a IA vai ameaçar o trabalho das pessoas? Ela vai acabar com os postos de trabalho? Mais do que responder “sim” ou não”, o professor recomenda que os estudantes pensem que a inteligência artificial é uma ferramenta para auxiliar a resolver tarefas cotidianas e que não é possível deixar a cargo dela algumas tomadas de decisões;
- Uso de IA em sala de aula: para Romário Silva, “a gente não tem como negar mais o uso da inteligência artificial. A popularização dos smartphones e seu uso em sala de aula já vem sendo debatida, mas com a IA a discussão se aprofunda. Estudantes precisam saber usar a ferramenta adequadamente. De um lado, temos inovação tecnológica e, de outro, a questão sobre como vamos controlar o uso inadequado”, considera;
- Vieses discriminatórios: como a inteligência artificial é treinada por seres humanos, ela pode reproduzir atitudes discriminatórias. Esses são os vieses discriminatórios da IA. “Nós já vimos notícias de algoritmos discriminando pessoas negras, por exemplo. Isso ocorre porque há pouca representatividade entre as pessoas que treinam esses modelos. É importante que os estudantes tenham olhar crítico para as respostas e os padrões que a IA entrega”, recomenda o professor. Além de pessoas racializadas, a inteligência artificial também tem histórico de discriminar mulheres, segundo relatório da ONU Mulheres;
- Limites éticos: se os modelos de IA usam dados para fazer treinamento, como garantir que esses dados sejam utilizados de forma ética? “Se já não temos como controlar o avanço da inteligência artificial, podemos questionar como os dados serão utilizados de forma correta”, afirma o professor;
- Envenenamento de IA: o “envenenamento” da inteligência artificial ocorre quando informações falsas são inseridas na ferramenta e ela acaba absorvendo essas informações como verdadeiras. Como os algoritmos são compensatórios, eles acabam reproduzindo informações equivocadas. Esse é um dos motivos pelos quais Silva considera que não é possível que a IA substitua totalmente os seres humanos – as pessoas precisam conferir aquilo que é oferecido como resultado;
- Política e manipulação de dados: “Em período eleitoral, é comum vermos a IA utilizada para desinformar e isso é extremamente perigoso porque pode influenciar a opinião do público. Estudantes devem ficar atentos ao que chamamos de deepfakes, aqueles conteúdos em vídeo, áudio ou imagem gerados ou modificados por IA que imitam a aparência e/ou a voz de pessoas reais”, sugere.
Para se informar sobre esse e outros assuntos relacionados à inteligência artificial, Romário Silva aconselha que estudantes utilizem o Google Acadêmico para buscar informações de qualidade, assim como manuais e tutoriais de órgãos públicos sobre IA. Outra boa fonte de informações são os estudos vinculados à instituições de pesquisa ou jornalísticas confiáveis.
Poluição por microplásticos
O biotecnologista e pesquisador do Laboratório de Simulação e Biologia Computacional (SimBiC), do INCT IAmazônia, Carlos Willian Dantas, elenca alguns temas que podem ser cobrados na redação Enem a respeito da poluição por microplásticos e seus riscos para a saúde e para o meio ambiente.
“Os microplásticos são pequenos fragmentos de até 2mm de tamanho, de plásticos que estão espalhados por todo o planeta. Eles chegam a vários lugares por meio do vento e pela chuva, por exemplo. Por conta do tamanho, eles acabam se espalhando e estão presentes em nossos alimentos, no ar que respiramos e isso acaba estando presente também no nosso organismo”, explica Dantas.
Para se ter uma ideia a respeito da presença de microplásticos, uma pesquisa publicada pelo Marine Pollution Bulletin, feita por pesquisadores do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), encontrou microplásticos, como fibras e materiais que servem como isolantes térmicos, em animais de vivem entre 400 e 1500 metros de profundidade na Bacia de Santos. A coleta para a pesquisa foi realizada na Bacia de Santos, a cerca de 140km da costa.
Entre os seres humanos, os microplásticos já foram encontrados no sangue, pulmões, fígado, rins, cérebro, tecido cardíaco, placenta e, até mesmo, no leite materno. “É importante evitar que esse tipo de contaminação aconteça porque nós ainda não conhecemos muito sobre os potenciais efeitos dos microplásticos nos organismos. Existem estudos relacionados ao BPA, que é o bisfenol A, que é uma substância que acaba mimetizando alguns hormônios como o estrogênio, e isso pode acabar gerando alguns efeitos. Também existem algumas substâncias liberadas por microplásticos que podem ser cancerígenas”, alerta o pesquisador.
Independentemente de os efeitos do microplástico no corpo humano e na natureza serem completamente conhecidos, Dantas alerta que é importante que os alunos tenham em mente que é necessário buscar formas de diminuir esse tipo de contaminação que já acontece e que tem aumentado nos últimos anos.
Confiança na ciência
Um estudo publicado em 2023 pela revista científica Nature Human Behavior mostra que a confiança da população mundial nos(as) cientistas é considerada relativamente alta. Em uma escala que vai de um a 5, a média de confiança registrada em cientistas foi de 3,62. A pesquisa foi feita com quase 72 mil pessoas, em 68 países.
As pessoas percebem os(as) cientistas como pessoas altamente competentes, qualificadas, honestas e preocupadas com o bem-estar social. Elas também entendem que pesquisadores(as) possuem integridade moderada, boas intenções, mas que são pessoas pouco receptivas a críticas.
No Brasil, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência e da Tecnologia (INCT-CPCT), realizou a pesquisa “Confiança na Ciência no Brasil em tempos de pandemia” que demonstra que quase 69% dos(as) brasileiros(as) confiam ou confiam muito na ciência. O trabalho foi divulgado em 2022.
A pesquisa demonstra que, apesar de o número ser alto, ele ainda é menor do que a média mundial. O recuo da confiança na ciência pode ter sido ocasionado pelo compartilhamento de desinformações durante a pandemia da covid-19.
Além desses dados, os(as) estudantes do Ensino Médio que vão realizar o Enem podem abordar a confiança na ciência de forma crítica. O doutorando em Engenharia Elétrica na área de Computação Aplicada pelo Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica da UFPA e pesquisador do INCT IAmazônia, Sidnir Ferreira, compartilha possíveis enfoques a respeito do tema.
- Desconfiar das informações que aparecem nas redes sociais: “não é só porque uma informação aparece constantemente nas redes sociais que ela é verdadeira. É necessário buscar fontes de informação de qualidade para conhecer mais sobre assuntos científicos”, indica Ferreira;
- Cuidado com a desinformação: “hoje, temos acesso a muitas fontes de informação, mas não é porque algo está na internet que é verdade. Até mesmo informações verdadeiras tiradas de contexto podem virar desinformação. Na saúde, isso é especificamente mais perigoso, pois podem afetar tratamentos ou outras tratativas relacionadas à saúde da população. Informações falsas sobre saúde, exames e vacinas podem fazer com que pessoas deixem de procurar assistência médica quando necessário”, informa o pesquisador;
- Ver a ciência com pensamento crítico: “confiar na ciência não significa confiar cegamente que tudo o que se diz é científico. O método científico precisa ser testado, validado e contextualizado. E quando surgem novas evidências, os métodos científicos podem ser questionados e é isso que faz a ciência ser confiável, porque ela pode ser revisitada em todo o seu processo. Confiar na ciência não é acreditar sem questionar, mas saber porque podemos confiar”, considera o integrante do INCT IAmazônia;
- Importância da divulgação científica: para que a ciência possa chegar à população, é necessário realizar o trabalho de comunicar as descobertas científicas – uma área conhecida como “divulgação da ciência”. “É preciso que a ciência seja comunicada de forma transparente e ética. Não basta só fazer ciência, ela precisa chegar a quem mais precisa”, finaliza Ferreira.
Independentemente de qual tema vai ser abordado na redação do Enem 2026, para se preparar para a prova, é necessário acessar fontes confiáveis de informação, como artigos científicos, relatórios e documentos de instituições oficiais e reportagens publicadas por veículos jornalísticos de qualidade.
