Aos 60, elas escrevem uma nova história por meio da alfabetização

Redação
Programa gratuito do Instituto Yduqs, com apoio da Estácio e do Grupo Equatorial, oferece aulas para pessoas a partir dos 14 anos e mostra que nunca é tarde para aprender, conquistar autonomia e realizar sonhos. Foto; Divulgação | Estácio

Programa gratuito do Instituto Yduqs, com apoio da Estácio e do Grupo Equatorial, oferece aulas para pessoas a partir dos 14 anos e mostra que nunca é tarde para aprender, conquistar autonomia e realizar sonhos

Em setembro, mês dedicado à valorização da alfabetização, uma oportunidade de recomeçar está aberta em Ananindeua. Até o dia 30, estão abertas as inscrições para o Programa de Alfabetização e Letramento de Jovens e Adultos do Instituto Yduqs, que oferece aulas gratuitas para pessoas a partir dos 14 anos. Na Estácio Ananindeua, duas vezes por semana, histórias como as de Maria Alice Soares Barbosa, de 65 anos, e Maria da Assunção dos Santos, de 60, mostram que aprender a ler e escrever pode significar muito mais do que decifrar palavras: pode representar autonomia, autoestima e liberdade.

Maria Alice voltou à sala de aula depois de décadas afastada dos estudos. O sonho é simples, mas carregado de significado: conseguir ler a Bíblia com os próprios olhos. Quando chegou ao programa, há cerca de cinco meses, ela tinha dificuldade até para escrever o próprio nome. Hoje, já consegue assiná-lo sozinha e acompanha as atividades pr​opostas pelas monitoras.

A história de Maria da Assunção também é marcada por uma vida em que o trabalho ocupou o espaço que deveria ter sido destinado à escola. Aos 60 anos, ela decidiu recuperar uma oportunidade que não teve na infância. Para chegar às aulas, pega dois ônibus na ida e outros dois na volta. O esforço é parte de um objetivo maior: aprender a ler e escrever para não depender de outras pessoas nas tarefas do cotidiano.

O desejo de conseguir ler a Bíblia foi o principal estímulo para aceitar o desafio. Para Maria Alice, saber ler significa também poder sair de casa, compreender informações e realizar tarefas cotidianas sem precisar recorrer sempre à ajuda de outras pessoas. “Eu pensei: saber eu vou, porque eu quero aprender pelo menos a ler a Bíblia. É muito ruim a gente sem saber ler, porque às vezes a gente quer sair e tem que ter o apoio de outras pessoas”, contou.

Há cerca de cinco meses no programa, ela já consegue perceber mudanças que antes pareciam difíceis de imaginar. Quando chegou, tinha dificuldade até para escrever o próprio nome. Hoje, consegue assiná-lo sozinha e acompanhar atividades no quadro. Ainda enfrenta obstáculos para juntar letras e desenvolver a leitura, mas já enxerga o caminho percorrido. “Quando eu entrei aqui, eu não sabia nem escrever meu nome. Fazia com muita dificuldade. Agora já sei assinar meu nome, já estou sabendo tirar do quadro e estou vendo que está indo bem”, afirmou.

Aos poucos, o que acontece dentro da sala começa a ultrapassar as paredes da faculdade. O aprendizado passa a fazer parte do cotidiano e transforma situações corriqueiras em pequenas conquistas.

É justamente esse processo que Maria da Assunção também vive. Durante toda a vida, ela teve vontade de estudar, mas precisou priorizar o trabalho. A rotina em casas de outras pessoas acabou deixando os estudos em segundo plano. Ela nunca chegou a frequentar uma escola de forma efetiva. A oportunidade apareceu quando a professora Shirley falou sobre o programa e a convidou para participar. “Eu nunca estudei porque sempre tive oportunidade de estudar, mas sempre vim para trabalhar, sempre nas casas dos outros, e não conseguia estudar”, relatou.

Hoje, para chegar às aulas, Maria da Assunção enfrenta uma viagem de dois ônibus na ida e outros dois na volta. O esforço, entretanto, não parece ser maior do que a vontade de aprender. Ela já conhecia algumas letras e os trajetos dos ônibus, mas tinha dificuldade para reconhecer palavras e escrever. Com o passar dos meses, começou a ganhar mais segurança.

A evolução também pode ser percebida na forma como ela se desloca pela cidade. Se antes precisava de acompanhamento, hoje já consegue identificar os ônibus que precisa pegar. “Na primeira vez que vim, vim com a professora Shirley. Depois, como conheço as letras e conhecia os ônibus que vinham, ficou fácil para mim. Eu venho e volto. Às vezes fica difícil porque não consigo enxergar bem, mas eu consigo”, explicou.

Mais do que dominar o alfabeto, Maria quer deixar de depender de outras pessoas. O objetivo que estabeleceu para si é claro: concluir essa etapa sabendo ler e escrever. “Eu imagino que saia daqui lendo e escrevendo, porque esse é o meu objetivo. Eu não quero ficar dependendo dos outros, porque é muito ruim estar dependendo dos outros”, frisou.

Muito além do quadro e do caderno

É justamente essa transformação que o programa busca provocar. Segundo a professora Camila Quadros, coordenadora do curso de Pedagogia da Estácio Ananindeua, alfabetizar jovens e adultos não significa apenas ensinar letras, palavras e frases. O propósito é fazer com que os participantes consigam utilizar o conhecimento adquirido para ocupar a sociedade com mais segurança e independência.

O programa funciona na unidade desde 2025 e já formou uma primeira turma. Atualmente, está na segunda edição. Ao longo desse período, passaram pela sala pessoas com diferentes idades e níveis de conhecimento, incluindo jovens de 14 e 17 anos e idosos com mais de 70. Para Camila, a diversidade é uma das características mais marcantes da iniciativa. “A ideia realmente é trazer essas pessoas para cá, independentemente do nível de escolaridade. Não é só para que elas aprendam a escrever e ler. O nome do programa já diz: é alfabetização e letramento. A gente quer que essas pessoas sejam alfabetizadas, mas que também sejam letradas para a sociedade”, destacou.

Essa diferença entre alfabetizar e letrar aparece nas situações simples do dia a dia. A pessoa que aprende a ler não passa apenas a reconhecer palavras: ela começa a compreender placas, identificar ônibus, fazer compras, lidar com informações e tomar decisões com mais independência.

De acordo com a coordenadora, alguns alunos chegaram ao programa sem sequer se sentirem seguros para utilizar o transporte público sozinhos. O aprendizado, portanto, também funciona como uma ferramenta de autonomia. “Tem alunos nossos que falaram que não pegavam nenhum ônibus sozinhos. E a gente já consegue ver essa mudança. Eles relatam isso para a gente. Então a alfabetização e o letramento mexem muito com a autoestima do indivíduo”, pontuou.

A autoestima é, inclusive, uma das preocupações centrais da equipe. Camila lembra que alguns alunos chegam retraídos, com vergonha de demonstrar suas dificuldades. Um dos casos que mais a marcou foi o de um rapaz de 17 anos que entrou no programa extremamente tímido.

Ele chegou à faculdade de cabeça baixa, usando boné e evitando contato visual. A vergonha estava relacionada também ao fato de ter dificuldades de aprendizagem em uma idade em que já esperava estar mais avançado nos estudos. Com o acolhimento das monitoras e a convivência com os demais alunos, o comportamento começou a mudar.

Aos poucos, aquele jovem que evitava ser visto passou a levantar a cabeça, olhar nos olhos, conversar e participar das atividades. A mudança não ficou restrita ao aprendizado escolar. “Ele chegava totalmente de cabeça baixa. Não queria olhar no olho, não queria ser visto. Depois, com o programa, ele começou a levantar o olhar. A gente percebeu que era um menino superdivertido e ele foi se soltando com o grupo”, contou Camila.

O jovem chegou a concluir dois módulos do programa e, segundo a coordenadora, a família percebeu a transformação. A mãe relatava que ele tinha vergonha de frequentar a escola justamente por sentir que não dominava conteúdos que outros jovens da mesma idade já conheciam. O programa acabou se tornando uma ponte para que ele retomasse a confiança e continuasse estudando. “Eu percebo essas mudanças no jeito da pessoa. Ela entra aqui de um jeito e sai realmente diferente. Acho que isso dá um gás, um novo impulso na vida”, afirmou.

Faculdade como espaço de novas experiências

A proposta também é fazer com que os alunos ocupem os espaços da faculdade e tenham contato com experiências que talvez nunca tenham tido antes. As atividades não ficam restritas ao quadro, ao caderno e às tarefas de escrita.

Recentemente, por exemplo, as alunas foram ao cinema. Para algumas, segundo Camila, pode ter sido a primeira experiência em uma sala de exibição. Outras atividades também estão sendo planejadas em parceria com cursos da instituição, para aproximar os participantes de diferentes áreas do conhecimento.

A intenção é que a faculdade seja percebida não apenas como o lugar onde acontecem as aulas de alfabetização, mas como um espaço que também pertence a elas. “Hoje elas foram ao cinema e, para algumas, talvez tenha sido até a primeira experiência de estar em um cinema. Elas estão dentro de uma faculdade, e a proposta é que vivenciem outras oportunidades aqui. Não queremos que seja só copiar do quadro e escrever. Queremos que elas se sintam mais ativas socialmente”, explicou.

A metodologia segue um cronograma elaborado pelo programa em âmbito nacional, mas é adaptada pelas equipes de acordo com as necessidades de cada turma. A palavra “tacacá”, por exemplo, pode servir como ponto de partida para trabalhar letras, sons, formação de palavras e até aspectos culturais da região.

Para Thalia Aleixo, estudante de Pedagogia e monitora do projeto, essa adaptação é fundamental porque cada aluno possui um ritmo e uma trajetória diferente. “A gente segue o plano de aula, mas também adapta conforme a necessidade delas. Se percebemos alguma dificuldade, intervimos e trabalhamos aquela palavra, formando outras palavras, frases e textos para que elas tenham prática na escrita”, explicou.

As aulas também são intercaladas com dinâmicas e oficinas. Em uma das atividades, as alunas participaram de uma oficina de flores. Em outra oportunidade, foram ao cinema. A ideia é evitar que o aprendizado se transforme em uma rotina cansativa e, ao mesmo tempo, aproximar o conteúdo da realidade dos estudantes.

Para Camila, existe ainda um elemento que não aparece necessariamente no material didático, mas que faz diferença no resultado: o afeto. As monitoras são orientadas a trabalhar com respeito, cuidado e sensibilidade, principalmente porque muitos alunos chegam carregando anos de frustração e insegurança.

“Antes de tudo, é muito respeito com elas. Muito cuidado, muito carinho, muito afeto. É entender que nem todo mundo foi alfabetizado naquele período da escola e que nem todo mundo teve essa oportunidade”, ressaltou.

Uma nova chance

No Pará, a Estácio Ananindeua é a única unidade da instituição a oferecer o programa. A iniciativa é desenvolvida pelo Instituto Yduqs, com apoio da Estácio e do Grupo Equatorial. Além de beneficiar os alunos da alfabetização, o projeto também funciona como uma experiência de formação para estudantes de Pedagogia.

As monitoras são alunas do curso e recebem acompanhamento e preparação para atuar com a Educação de Jovens e Adultos. Na Estácio Ananindeua, atualmente, duas estudantes atuam como monitoras e recebem bolsa de 100% na instituição como forma de incentivo à participação no programa.

Thalia conta que, no início, sentiu receio de trabalhar com adultos, justamente por perceber que a dinâmica da EJA é diferente da educação infantil. Com o tempo, descobriu que o aprendizado também acontecia no sentido inverso. “Assim como nós passamos nosso conhecimento para elas, elas também ensinam muito para a gente. Ensinam com a vida, com o cotidiano. Muitas coisas que nós não sabemos, elas sabem, e isso também é um saber, diferente do nosso”, reconheceu.

A evolução de sua própria tia, Maria Alice, tornou essa experiência ainda mais pessoal. Thalia acompanhou de perto a transformação de alguém que não conseguia escrever o próprio nome e hoje já consegue fazer a própria assinatura.

Para a monitora, assistir a essas conquistas reforça a escolha pela profissão. “Quando minha tia não sabia escrever o próprio nome e hoje ela sabe, quando ela conta isso e os olhos dela se enchem de lágrimas, eu fico muito feliz. É aquele sentimento de saber que estou no lugar certo e que escolhi a profissão certa para me formar e me especializar”, disse.

O programa tem duração ao longo do ano letivo e, ao final, os participantes podem participar de uma cerimônia de formatura. Quem ainda não se sentir preparado também pode continuar no programa e avançar no aprendizado. A iniciativa oferece uma formação de alfabetização e letramento, mas não substitui a escolarização formal nem concede um certificado equivalente ao ensino fundamental ou médio. A continuidade dos estudos pode ser buscada posteriormente em instituições de ensino que ofereçam a modalidade adequada.

Para Camila, entretanto, a conclusão mais importante não está no papel entregue ao final do curso, mas na mudança que permanece depois dele. “Eu acho que, quanto mais a pessoa se sente acolhida e sente que aquilo está mudando a vida dela, maior é o nosso ganho também”, afirmou.

Essa transformação na vida dos participantes também representa, para o Instituto Yduqs, uma forma de ampliar o impacto da educação para além dos muros das instituições de ensino. A presidente do Instituto Yduqs e vice-presidente do grupo educacional Yduqs, Cláudia Romano, destaca que aprender a ler e escrever está diretamente relacionado à capacidade de fazer escolhas e participar de forma mais ativa da sociedade. “Quando uma pessoa aprende a ler e escrever, ela amplia suas possibilidades de escolha, de participação social e de autonomia. O Programa de Alfabetização e Letramento de Jovens e Adultos, além de gratuito, foi pensado para dialogar com a realidade dos alunos, ajudando cada participante a usar o conhecimento no dia a dia e a transformar sua própria história”, afirmou.

Segundo Cláudia, a iniciativa também busca potencializar o impacto da alfabetização no país e ampliar o acesso à educação básica. Nesse sentido, o apoio do Grupo Equatorial fortalece a atuação do programa e contribui para levar a iniciativa a regiões estratégicas. “Acreditamos no poder de potencializar o impacto da alfabetização no país. A colaboração com o Instituto Equatorial fortalece nossa atuação em regiões estratégicas e amplia o alcance do programa, levando educação básica de qualidade a quem mais precisa”, reforçou.

Para Shirley Moura, diretora acadêmica da Estácio Ananindeua, a participação da instituição no programa reforça o compromisso da Estácio com a transformação social por meio da educação. “Para nós, é muito importante poder abrir as portas da Estácio e contribuir para que essas pessoas tenham uma nova oportunidade de aprender. A parceria com o Instituto Yduqs e o Grupo Equatorial permite que a educação chegue a quem, por diferentes motivos, não teve essa oportunidade no momento adequado. Mais do que ensinar a ler e escrever, queremos contribuir para que nossos alunos conquistem autonomia, confiança e novas possibilidades para suas vidas”, destacou.

SERVIÇO:

As inscrições para o programa permanecem abertas até 30 de setembro. Podem participar pessoas a partir dos 14 anos, sem limite máximo de idade. Menores de idade precisam estar acompanhados de um responsável na unidade durante as atividades. Para fazer a inscrição, é necessário apresentar documento de identificação, como RG, e comprovante de residência. Depois, a equipe realiza uma avaliação inicial para conhecer o nível de aprendizagem de cada participante.

Compartilhe
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *