Entre belezas, conflitos, memórias e afetos, Marabá, no sudeste do Pará, reúne diferentes formas de viver e perceber o território. É a partir dessas perspectivas que surgem “Marabela” e “Cabelo Seco”, documentários produzidos por jovens participantes do projeto Perifa.Doc. As obras têm previsão de exibição em Marabá e Belém entre os dias 25 e 30 de setembro.
As produções transformam questões sociais, culturais e territoriais do município em narrativas autorais. Os filmes partem da escuta de moradores para refletir sobre as histórias construídas em torno dos territórios e sobre quem tem o direito de contá-las.
Os documentários foram pensados, roteirizados e produzidos pelos próprios participantes do projeto, que tiveram contato com oficinas práticas, aulas teóricas, cineclubes e saídas de campo.
Documentários apresentam diferentes perspectivas sobre Marabá
Um dos trabalhos é “Marabela”, que propõe um olhar sobre diferentes imagens e experiências relacionadas à cidade. A produção também dialoga com o poema de mesmo nome, escrito pela professora Eliane Soares.
A obra despertou na equipe o interesse pelas diferentes percepções que convivem quando se fala em Marabá. Essa ideia é representada simbolicamente pela passagem de “MaraBala” para “MaraBela”.
Mais do que escolher entre essas duas visões, o documentário busca apresentar a coexistência delas. A narrativa aborda experiências relacionadas à periferia e às desigualdades sociais, mas também destaca a riqueza cultural, as paisagens e os vínculos construídos pelos moradores.
“Esperamos que o público reflita sobre os desafios sociais presentes em Marabá, compreendendo que a dicotomia entre beleza e caos pode coexistir historicamente em um mesmo território, assim como em diversos lugares do país. Ao mesmo tempo, reflitam que as riquezas culturais permanecem vivas por meio da dança, da música, das paisagens, dos afetos e das formas de pertencimento construídas pelos moradores”, afirma o grupo responsável pela produção.
Escuta dos moradores transformou a narrativa
Durante o processo de produção, a aproximação com os personagens também mudou a maneira como a própria equipe passou a enxergar a história que pretendia contar.
Inicialmente, a expectativa era encontrar pessoas que se identificassem principalmente com uma das duas perspectivas apresentadas pelo filme. No entanto, as conversas mostraram que essa separação não era tão simples.
As duas experiências apareciam, muitas vezes, na trajetória de uma mesma pessoa. A descoberta levou os realizadores a construir uma narrativa mais complexa sobre a cidade.
“Também esperamos que os termos Marabala e Marabela despertem uma reflexão linguística e pedagógica sobre o próprio território e as narrativas construídas acerca da cidade. Não queremos cristalizar a interpretação dos espectadores sobre Marabá”, explica o grupo.
A equipe também destaca que o documentário pretende apresentar diferentes experiências e permitir que cada espectador construa sua própria percepção sobre o município.
‘Cabelo Seco’ ressignifica identidade da comunidade
A relação entre território e identidade também aparece em “Cabelo Seco”. O documentário parte da história da comunidade e de um nome marcado, ao longo do tempo, por estigmas, preconceito racial e desvalorização das mulheres negras.
Ao se aproximarem do território, os realizadores encontraram uma realidade que contrasta com essa visão historicamente construída. A produção destaca mulheres que preservam memórias, fortalecem vínculos comunitários e participam de iniciativas culturais.
Entre as ações acompanhadas pelo documentário estão o coletivo Raízes do Cabelo Seco e o Dança Longevo.
É nesse contraste que o filme encontra sua principal questão: como uma comunidade passa a perceber e ressignificar o próprio nome e a própria história quando assume o direito de contar sua trajetória?
Para investigar essa questão, a produção coloca as mulheres no centro da narrativa. Elas compartilham memórias, experiências e a maneira como se relacionam com o território.
A proposta é acompanhar um processo de ressignificação que não é imposto pelo filme, mas que já acontece dentro da própria comunidade.
Mulheres negras ganham protagonismo na produção
“Esperamos que Cabelo Seco desperte um novo olhar sobre as histórias que carregamos e sobre o poder que as palavras têm de construir, mas também de transformar identidades”, destaca o grupo responsável pelo documentário.
A equipe também espera que o filme contribua para fortalecer o sentimento de pertencimento da comunidade e valorizar sua memória e cultura.
“Para a comunidade, esperamos que o filme seja um gesto de reconhecimento, pertencimento e fortalecimento, reafirmando que sua memória, sua cultura e, principalmente, suas mulheres são as verdadeiras protagonistas dessa história”, afirma o grupo.
Audiovisual fortalece histórias contadas pelas periferias
Embora partam de questões diferentes, “Marabela” e “Cabelo Seco” se aproximam ao propor um olhar sobre Marabá construído a partir de dentro dos próprios territórios.
Essa perspectiva também integra a proposta do Perifa.Doc, que estimula jovens das periferias a transformar suas vivências em produções audiovisuais.
Com isso, os territórios deixam de aparecer apenas como cenários e passam a ocupar um papel central nas narrativas. As experiências dos moradores, suas memórias e suas relações com os espaços onde vivem tornam-se elementos fundamentais para a construção dos filmes.
A expectativa é que os dois documentários, junto a outras produções do projeto, sejam apresentados ao público em Marabá e Belém entre os dias 25 e 30 de setembro, em uma programação dedicada ao audiovisual e à valorização das narrativas produzidas pelas periferias.
