Eles aparecem nas redes sociais falando sobre sua identificação com lobos, gatos, raposas e outros animais. Os chamados therians vêm ganhando visibilidade, especialmente entre adolescentes, despertando curiosidade, estranhamento e, muitas vezes, ironia. O problema é que a discussão cresce mais rápido do que o conhecimento científico sobre o fenômeno. Ainda há poucos estudos sobre o tema, principalmente na adolescência, o que exige cautela para evitar tanto a patologização quanto a banalização da experiência.
Para a psicóloga Juliana Sato, especializada no vínculo entre humanos e animais, mais importante do que tentar definir quem são os therians é compreender o significado dessa identificação para cada adolescente. “A adolescência é um período de construção da identidade, de busca por pertencimento e de experimentação. Em alguns casos, essa identificação pode fazer parte desse processo; em outros, pode coexistir com sofrimento emocional. Sem escuta, é impossível saber”, explica.
A relação entre humanos e animais ajuda a entender por que esse tipo de identificação pode assumir um significado importante. Animais ocupam um lugar afetivo relevante na vida das pessoas e podem representar companhia, segurança, acolhimento e apego. Na adolescência, esses símbolos podem ser utilizados para expressar aspectos da própria identidade.
Isso, porém, não significa que o vínculo afetivo com animais leve alguém a desenvolver uma identidade therian. “O vínculo afetivo explica a importância que os animais têm na nossa vida, mas não explica, sozinho, a construção de uma identidade”, afirma Juliana.
Redes sociais ampliam a visibilidade
As redes sociais permitem que adolescentes encontrem pessoas com experiências semelhantes, favorecendo o sentimento de pertencimento e ampliando a visibilidade dessas manifestações.
Para Juliana, isso não significa que tudo seja apenas uma “moda da internet”, nem que toda identificação esteja relacionada a um problema psicológico. “Toda geração cria formas próprias de construir identidade e pertencimento. Entre esses dois extremos existe um espaço importante para a escuta.”
A recomendação vale especialmente para pais e educadores. Ridicularizar, confrontar ou tentar convencer imediatamente o adolescente de que ele está errado tende a interromper o diálogo. Em vez disso, a orientação é demonstrar curiosidade genuína, com perguntas como “o que isso significa para você?” ou “quando você começou a se sentir assim?”. “Escutar não significa concordar com tudo. Significa criar condições para entender o que está sendo vivido e, a partir daí, avaliar se existe sofrimento, necessidade de acompanhamento ou apenas uma forma de expressão identitária”, explica.& lt; /span>
Quando procurar ajuda
Na Psicologia, o principal sinal de atenção não é a identificação em si, mas o sofrimento ou prejuízo que ela possa causar. Isolamento importante, queda no desempenho escolar, dificuldades persistentes nos relacionamentos, sintomas de ansiedade ou depressão, comportamentos de risco ou alterações significativas no funcionamento do adolescente justificam uma avaliação profissional.
“O acompanhamento psicológico não existe para fazer alguém deixar de ser therian. Ele existe para compreender a pessoa em sua totalidade, ajudá-la a lidar com possíveis sofrimentos e favorecer um desenvolvimento saudável, independentemente da forma como ela constrói sua identidade.”
Para Juliana, diante de um fenômeno ainda pouco estudado, a melhor resposta dos adultos não é o julgamento imediato, mas a disposição para ouvir e compreender. Afinal, antes de tentar explicar o que um adolescente está vivendo, é preciso criar espaço para que ele próprio possa contar.
