O período da Copa do Mundo altera a rotina das famílias e mobiliza intensamente o imaginário infantil. Mais do que acompanhar as partidas, as crianças escolhem ídolos, adotam as camisas das seleções e vivenciam os lances com alto engajamento emocional. Se por um lado a vitória gera euforia, a derrota frequentemente desencadeia manifestações de choro, irritação e frustração. Para educadores e psicólogos, essas oscilações afetivas constituem oportunidades pedagógicas ideais para trabalhar o desenvolvimento socioemocional dos menores.
A intensidade com que o público infantil absorve o esporte decorre do forte senso de pertencimento e identificação com figuras de destaque, de forma análoga ao que ocorre com super-heróis e personagens de ficção.
“Quando a gente é criança, esse pertencimento acontece de uma forma muito intensa. A criança não só assiste a um jogo, ela faz parte dele”, explica a psicóloga e docente universitária Maria Celina Ferreira Goedert.
No entanto, a especialista ressalta que o esporte lida com dinâmicas reais, sem desfechos previamente roteirizados:
“O esporte é imprevisível. Lidar com essa frustração dentro do futebol pode ajudar a criança a levar esse aprendizado para outras situações da vida.”
O papel das regras e o respeito ao adversário
O ambiente esportivo condensa regras sociais complexas de forma simplificada, facilitando a compreensão de conceitos abstratos para crianças e adolescentes. O enfrentamento de resultados adversos e o reconhecimento do mérito alheio surgem como eixos estruturantes desse aprendizado.
Especialistas em Ciências do Movimento Humano enfatizam que competições de grande porte ilustram a importância da convivência multicultural pacífica e a submissão a normas universais de conduta.
“O futebol ensina que nem sempre vamos ganhar e que, quando tivermos resultados diferentes do esperado, precisamos respeitar quem venceu”, pontua o professor Claudio Henrique Pereira Verão.
O docente acrescenta que os jogos servem de exemplo prático para demonstrar que a violação de regras de convivência acarreta consequências diretas.
A mediação do adulto como fator determinante
A assimilação positiva dos valores do esporte não ocorre de maneira espontânea, dependendo diretamente da postura adotada pelos responsáveis. Diante da frustração infantil por uma derrota, atitudes de minimização do sentimento, como classificar o evento como “apenas um jogo”, tendem a afastar o diálogo. O manejo recomendado envolve o acolhimento da emoção e a subsequente racionalização do fato.
A conduta dos adultos durante as transmissões também atua como modelo comportamental. Manifestações de agressividade, xingamentos ou a transformação do oponente em inimigo são replicadas pelas crianças. Em contrapartida, quando os responsáveis demonstram equilíbrio diante da derrota e valorizam o esforço coletivo da equipe, o futebol consolida-se como um instrumento para o ensino da disciplina, do trabalho em equipe, do respeito mútuo e da resiliência de tentar novamente.
