Empreendedor negro e autenticidade: por que ser verdadeiro custa mais caro

Redação

Ser autêntico segue sendo um desafio desigual no ambiente digital. Para o empreendedor negro, a autenticidade não funciona apenas como valor simbólico, mas como um fator que impacta diretamente contratos, renda e saúde mental.

“Marcas não realizam parcerias com criadores negros que têm um posicionamento ativista.”
A afirmação parte de uma empreendedora digital negra do setor de beleza e cosméticos e integra uma pesquisa sobre a gestão da autenticidade nas relações entre criadores de conteúdo e grandes marcas.

Hoje, a palavra “autenticidade” aparece com frequência em discursos corporativos. Marcas, artistas e influenciadores a utilizam como sinônimo de verdade, coerência e princípios. No entanto, quando aplicada a pessoas, autenticidade significa fidelidade aos próprios valores — e isso nem sempre agrada ao mercado.

Quando a coerência incomoda as marcas

A contradição surge com força quando empresas dizem valorizar criadores responsáveis, mas recuam ao se deparar com discursos que expõem desigualdades, práticas abusivas ou incoerências corporativas. Assim, a verdade passa a ter limite.

Se alguém afirma compromisso social, mas mantém parcerias milionárias com empresas de apostas que deixam um rastro de endividamento e adoecimento social, existe coerência entre discurso e prática? Essa pergunta ajuda a entender por que a autenticidade do empreendedor negro costuma ser tratada como risco.

O custo da autenticidade para criadores negros

Pesquisas de consultorias como Black Influence e Manychat mostram que criadores negros recebem, em média, 16% menos do que criadores brancos. Além disso, 51% relatam impactos diretos na saúde mental devido a conflitos com marcas e audiências.

Esses dados dialogam com os achados da pesquisa que desenvolvi. Embora o problema não seja novo, seus efeitos se intensificam. Perda de contratos, silenciamento e instabilidade emocional tornaram-se parte da rotina de muitos empreendedores digitais negros.

Quando denunciar vira punição

Uma criadora negra de São Paulo relatou que, após denunciar maus-tratos cometidos por funcionários de uma empresa durante uma ação publicitária, deixou de ser chamada para novos trabalhos.
“Fiquei muito mal com a forma como me trataram. Depois que relatei tudo, nunca mais fui convidada”, contou.

Casos como esse se multiplicam e afetam diretamente a sustentabilidade dos negócios dessas profissionais.

Ceder também adoece

Por outro lado, quando o criador negro opta por silenciar para manter contratos, o impacto surge de outra forma. Um criador de Minas Gerais contou que precisou flexibilizar sua autenticidade para garantir renda. Pouco tempo depois, afastou-se das redes sociais.

“Desinstalei os aplicativos. É muita informação falsa e a gente precisa fingir que está tudo bem. Fui parar no hospital e iniciei tratamento com psiquiatra e psicólogo”, relatou.

Autenticidade não pode ser punição

Na minha trajetória como professor, consultor em diversidade e inclusão e empreendedor, percebo tentativas constantes de direcionar narrativas e atuações. A mensagem implícita é clara: seja autêntico, desde que isso não confronte estruturas.

Enquanto a autenticidade do empreendedor negro for aceita apenas quando conveniente, diversidade seguirá restrita ao discurso. Autenticidade não deveria exigir sacrifício extremo — nem ser um ato solitário de coragem.

*Wagner Cerqueira, professor, consultor DE&I, empreendedor, doutorando em administração

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