Janeiro Branco: o câncer infantil além do diagnóstico, quando a dor também é de quem cuida

Entre o impacto da notícia e a rotina do tratamento, o apoio emocional se torna decisivo para não desistir do cuidado

Matheus Freire
No Janeiro Branco, Instituto Ronald McDonald alerta para a importância da saúde mental de mães e pais no tratamento do câncer infantil. (Créditos: Ilustrativa/Freepik)

Receber o diagnóstico de câncer em um filho interrompe o curso natural da vida. Não é apenas uma informação médica, mas o início de uma travessia marcada por medo, incerteza e silêncio. No Janeiro Branco, mês dedicado à saúde mental, o Instituto Ronald McDonald chama atenção para uma dimensão ainda pouco discutida no câncer infantil: o sofrimento emocional de mães, pais e responsáveis que assumem o papel de cuidar.

Para essas famílias, o diagnóstico inaugura um luto vivido em tempo real. A rotina muda abruptamente e o tratamento passa a ocupar o centro da vida. Consultas, exames, internações e decisões difíceis se acumulam, enquanto o mundo ao redor segue seu ritmo habitual. Nesse contraste, o cuidador frequentemente enfrenta a solidão e a sensação de precisar ser forte o tempo todo.

“A notícia do câncer paralisa. A gente entra em um estado de alerta permanente, vivendo entre a esperança e o medo. E, com o tempo, percebe que nem sempre há espaço para falar dessa dor. As pessoas seguem, mas quem está cuidando fica ali, tentando ser forte o tempo todo”, afirma Bianca Provedel, CEO do Instituto Ronald McDonald.

Ao longo do tratamento, o isolamento tende a se aprofundar. O medo da perda, a exaustão física, a culpa e a dificuldade de expressar sentimentos fazem com que muitos cuidadores silenciem a própria dor. Falar sobre a doença parece pesado demais para quem está de fora e, assim, o sofrimento emocional passa a ser vivido de forma solitária.

Essa sobrecarga impacta diretamente a continuidade do tratamento. A saúde mental fragilizada compromete a organização da rotina, a tomada de decisões e a capacidade de manter o cuidado constante exigido pelo tratamento oncológico infantil. Quando o cuidador adoece emocionalmente, todo o processo se torna mais vulnerável.

“Cuidar de uma criança com câncer exige força emocional constante. Quando não há acolhimento psicológico, esse peso se acumula. A saúde mental do cuidador não é um detalhe, ela interfere diretamente na continuidade do tratamento e no bem estar da criança”, destaca Bianca.

O acolhimento não se restringe ao ambiente hospitalar. Ele também se constrói nas relações cotidianas. Amigos, familiares e colegas de trabalho muitas vezes desejam ajudar, mas não sabem como agir diante da dor. Compreender que apoiar não exige palavras prontas, mas presença contínua, é um passo fundamental.

Como apoiar quem cuida de uma criança com câncer

O apoio emocional do entorno pode fazer diferença concreta na forma como a família atravessa o tratamento. Entre as atitudes que fortalecem quem cuida estão estar presente ao longo de todo o processo, oferecer ajuda prática no dia a dia, escutar sem tentar minimizar a dor, respeitar o silêncio, manter o vínculo para além da doença e não desaparecer com o passar do tempo.

“Muitas famílias sofrem em silêncio porque sentem que o sofrimento incomoda. Quando alguém se mantém por perto, sem julgamento e sem cobranças, isso sustenta emocionalmente quem está cuidando. Apoiar também é um ato de cuidado”, afirma Bianca Provedel.

Nas unidades dos programas Casa Ronald McDonald e Espaço da Família Ronald McDonald, esse acolhimento acontece de forma contínua. Além de hospedagem, alimentação e transporte, as famílias encontram escuta qualificada, apoio psicológico e um ambiente seguro para expressar medos, inseguranças e cansaço. O convívio com outras famílias que vivenciam a mesma realidade reduz a sensação de isolamento e fortalece redes de apoio.

“O acolhimento muda a forma como essa jornada é vivida. Quando a mãe ou o pai se sentem vistos, escutados e amparados, eles conseguem seguir. E seguir é o que garante que o tratamento continue”, afirma a CEO do Instituto.

Com mais de 26 anos de atuação, o Instituto Ronald McDonald observa que o cuidado emocional é um dos pilares para reduzir o abandono do tratamento e fortalecer a resiliência das famílias. Em um país marcado por desigualdades sociais, oferecer suporte psicológico também é uma forma concreta de promover equidade em saúde.

No Janeiro Branco, o Instituto reforça que falar sobre saúde mental no câncer infantil é falar de sobrevivência, continuidade do cuidado e dignidade. Ninguém deveria enfrentar o medo de perder um filho em silêncio.

“Cuidar de quem cuida é um ato de responsabilidade e humanidade. A força que tanto se espera dessas famílias só existe quando elas não precisam enfrentar tudo sozinhas”, conclui Bianca Provedel.

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