O desligamento de executivos ainda é um tema sensível nas organizações brasileiras. Culturalmente, a saída de uma liderança costuma ser associada a fracasso ou ruptura, e não a um movimento natural dos ciclos do negócio. Esse tabu gera silêncio, insegurança e, muitas vezes, decisões improvisadas. No entanto, em um cenário de maior pressão por governança, transparência e critérios de ESG, a forma como uma empresa conduz uma transição executiva tornou-se um claro indicador de sua maturidade institucional.
Quando um desligamento é mal conduzido, os riscos vão muito além da troca de uma liderança. O impacto reputacional é imediato. Ruídos na comunicação ou narrativas desalinhadas fragilizam a marca empregadora, afetam a confiança do mercado e alcançam investidores e parceiros. Internamente, a saída abrupta ou pouco explicada de um executivo gera insegurança, queda de engajamento e aumento do turnover em posições estratégicas. A percepção de instabilidade compromete o clima organizacional e a produtividade.
O atual contexto econômico, marcado por pressão por eficiência e revisão de estruturas, tornou os desligamentos executivos mais frequentes e estratégicos. Conselhos e acionistas estão menos tolerantes à baixa performance ou ao desalinhamento com o plano de negócios. Ao mesmo tempo, a evolução da governança corporativa elevou o nível de exigência sobre como essas decisões são tomadas. Hoje, desligamentos de lideranças são tema de conselho e envolvem gestão de risco, compliance e comunicação estruturada ao mercado.
É nesse cenário que a governança corporativa exerce papel central. Processos claros de avaliação, critérios objetivos de desempenho e políticas de sucessão reduzem subjetividade e improviso. Quando a governança atua de forma preventiva, o desligamento deixa de ser uma ruptura improvisada e passa a ser um movimento estratégico, conduzido com ética, responsabilidade e respeito institucional.
O RH é peça-chave nesse processo e deve ser envolvido desde a fase de análise estratégica, e não apenas na execução da saída. Sua atuação qualifica a decisão, estrutura planos de sucessão, coordena a comunicação e avalia impactos culturais e riscos trabalhistas. Quando participa desde o início, o RH transforma o desligamento em um processo estruturado que protege pessoas e a organização.
Na prática, um desligamento humanizado no nível executivo é aquele conduzido com clareza, coerência e dignidade. Comunicação direta, alinhamento entre conselho e liderança, respeito a contratos e cuidado com a narrativa preservam a imagem do profissional e da empresa. A oferta de outplacement, nesse contexto, deixa de ser um gesto opcional e passa a integrar as boas práticas de governança.
Empresas que tratam desligamentos como parte da jornada, e não como um fim abrupto, fortalecem a confiança interna, preservam reputação e amadurecem sua cultura. Em um mercado cada vez mais atento à coerência entre discurso e prática, essa maturidade não é apenas desejável: é uma vantagem competitiva.
*Andiara Martins, Conselheira da Associação Brasileira de Recursos Humanos- MG (ABRH-MG)
