Educação climática ainda é desafio nas escolas brasileiras no Dia Internacional da Educação

Levantamento revela lacunas no ensino sobre clima e professores podem acessar formação gratuita para qualificar o debate em sala de aula

Matheus Freire
Educação climática ainda é pouco explorada nas escolas brasileiras apesar do avanço da crise ambiental. (Créditos: Divulgação/Matt Palmer)

Celebrado em 24 de janeiro, o Dia Internacional da Educação reforça um alerta importante no Brasil: a educação climática ainda não ocupa o espaço necessário nas escolas. Em um cenário marcado por desinformação, negacionismo e conteúdos distorcidos nas redes sociais, professores e estudantes enfrentam dificuldades para discutir mudanças climáticas de forma qualificada e baseada em evidências científicas.

Dados do Censo Escolar 2024 mostram que cerca de um terço das mais de 179 mil escolas públicas e privadas do país não realizou nenhuma ação relacionada à educação ambiental ou às mudanças climáticas no último ano. Isso representa aproximadamente 60 mil instituições sem atividades voltadas ao tema. O levantamento também aponta desigualdades regionais, com o Sudeste liderando o pior desempenho, onde cerca de 42% das escolas não desenvolveram iniciativas ambientais, seguido pelo Norte, com 39%.

Diante desse cenário, o Redes Cordiais, em parceria com a Embaixada do Reino Unido, mantém disponível para o início do ano letivo o curso gratuito No Clima Certo: combatendo a desinformação climática nas escolas. A formação é destinada a professores das redes pública e privada e pode ser acessada gratuitamente na plataforma Avamec. Como material complementar, os educadores também contam com o Guia No Clima Certo

Com carga horária de 20 horas, o curso adota uma abordagem interdisciplinar e reúne especialistas de referência em clima, ciência, comunicação e educação. O conteúdo é oferecido de forma online e assíncrona, com videoaulas, materiais de apoio, slides e referências bibliográficas que auxiliam a aplicação prática em sala de aula. Entre os participantes estão pesquisadores e comunicadores ligados a instituições como Observatório do Clima, INPE, Climainfo, ITS Rio, além de representantes da Embaixada do Reino Unido e da equipe do Redes Cordiais.

O guia pedagógico que acompanha o curso está estruturado em quatro eixos fundamentais: fundamentos das mudanças climáticas, conceitos de desinformação, negacionismo climático e narrativas digitais. Cada unidade apresenta explicações acessíveis e propõe atividades que podem ser desenvolvidas com os alunos, contribuindo para a formação do pensamento crítico.

Para Clara Becker, diretora executiva do Redes Cordiais, a escola desempenha um papel estratégico no enfrentamento da desinformação climática. “A escola é um ambiente estratégico para o combate à desinformação climática. É nela que se forma o olhar crítico, a confiança na ciência e a capacidade de distinguir fatos de manipulações. A desinformação climática é hoje uma das maiores ameaças à ação ambiental. Criada para manipular, gerar medo e proteger interesses econômicos, ela se espalha nas redes sociais mais rápido que os fatos”, afirma.

Estudos científicos indicam que o aquecimento global é contínuo desde 1880 e se intensificou no século 21. No Brasil, o Relatório Bienal de Transparência aponta 14 ameaças climáticas distribuídas em todas as regiões, como aumento de chuvas e inundações no Sul, Norte e Sudeste, secas mais intensas no Nordeste e Centro Oeste e maior ocorrência de eventos extremos, como ventos severos e ciclones.

Apesar da gravidade do tema, a população ainda apresenta baixo nível de informação. Pesquisa do ITS Rio revela que apenas 22% dos brasileiros consideram saber muito sobre aquecimento global e mudanças climáticas. Em contrapartida, 74% defendem a proteção do meio ambiente mesmo que isso implique menor crescimento econômico, o que reforça a importância de trabalhar o tema no ambiente escolar.

Outro levantamento nacional, realizado pela Nova Escola em parceria com o Office for Climate Education, aponta que 38% dos professores não se sentem preparados para abordar os conceitos científicos relacionados às mudanças climáticas. Além disso, mais de 40% das escolas ainda não incorporaram planos de ação climática em seus projetos pedagógicos. Ainda assim, 86% dos docentes demonstram interesse em participar de formações continuadas, evidenciando a demanda por iniciativas de capacitação.

Criado em 2018, o Redes Cordiais atua na promoção de um ambiente digital mais saudável, estimulando a educação midiática, o pensamento crítico e o diálogo democrático. Em sete anos, a iniciativa já capacitou milhares de profissionais, produziu materiais educativos sobre desinformação e foi reconhecida internacionalmente pela Unesco como uma das principais iniciativas brasileiras na área. Mais informações podem ser acessadas no site oficial

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