Na COP30 e além dela, a sociobioeconomia ecoa como urgência planetária

Povos e comunidades tradicionais reforçam a defesa do território, da integridade dos biomas e de políticas públicas estruturantes para enfrentar a crise climática

Matheus Freire
Painel sobre regularização fundiária dos territórios na COP30. (Créditos: Camila Araújo/Acervo Rede)

A sociobioeconomia ganhou centralidade nos debates globais sobre clima e desenvolvimento e se consolidou como uma das principais agendas da COP30, realizada em Belém. O modelo, que integra biodiversidade, economia, conhecimentos tradicionais, justiça social e inovação científica, foi apresentado como resposta concreta à insegurança alimentar, à perda de biodiversidade e ao avanço das mudanças climáticas.

O protagonismo brasileiro no tema ocorre em um cenário de alerta internacional. Cientistas do IPCC apontam riscos crescentes de escassez de alimentos provocados por secas, inundações, estresse térmico e perda de qualidade nutricional. Esse quadro é agravado por um sistema alimentar concentrado, baseado em poucas espécies cultivadas em larga escala. Dados da FAO indicam que apenas nove plantas respondem por mais de 60 por cento da produção agrícola global.

Na contramão desse modelo, agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais mantêm sistemas produtivos diversos e resilientes. Mais de seis mil espécies alimentares fazem parte de práticas agroecológicas e extrativistas que preservam biomas e garantem segurança alimentar. Ainda assim, essa diversidade segue pouco presente nos mercados e no cotidiano da população.

Para a coordenadora do Programa Sociobiodiversidade do ISPN, Silvana Bastos, o Brasil vive uma contradição estrutural. Embora concentre a maior biodiversidade do planeta, produtos e serviços da sociobiodiversidade representam menos de 0,5 por cento do PIB nacional. Ao mesmo tempo, atividades agropecuárias associadas ao desmatamento e às queimadas respondem por cerca de 70 por cento das emissões brasileiras de gases de efeito estufa, criando um ciclo que compromete a própria sustentabilidade da produção de alimentos.

Nesse contexto, a sociobioeconomia surge como estratégia de adaptação climática e desenvolvimento. A diversidade biológica, aliada aos saberes tradicionais, posiciona o país em condições privilegiadas para estruturar sistemas alimentares mais resistentes aos impactos do clima e com maior valor social e ambiental.

O avanço dessa agenda, no entanto, depende de políticas públicas consistentes. Redes como o Observatório das Economias da Sociobiodiversidade, que reúne dezenas de organizações da sociedade civil, atuam para fortalecer marcos legais, ampliar financiamento e garantir a participação de povos e comunidades na formulação de políticas. Iniciativas como a inclusão do componente sociobio na Política Nacional de Bioeconomia e os avanços da Reforma Tributária são apontadas como passos importantes, embora ainda insuficientes.

Segundo o analista de advocacy do ISPN, João Cerqueira, a garantia dos territórios é o eixo central de toda a agenda. Sem segurança fundiária e proteção jurídica, não há como desenvolver cadeias produtivas sustentáveis nem assegurar a permanência das comunidades em seus modos de vida. A defesa da floresta em pé e dos biomas conservados é vista como condição básica para uma economia justa e duradoura.

A COP30 também evidenciou experiências práticas da sociobioeconomia. Um dos destaques foi o restaurante da sociobiodiversidade operado pela Central do Cerrado, que forneceu milhares de refeições diárias com alimentos da agricultura familiar e da produção agroecológica. A iniciativa demonstrou que é possível alinhar alimentação saudável, geração de renda local e redução de impactos ambientais em eventos de grande escala.

Para especialistas, o legado da COP30 vai além dos acordos formais. A conferência ampliou a visibilidade das populações tradicionais e reforçou a sociobioeconomia como caminho estratégico para frear o desmatamento, restaurar áreas degradadas e promover uma transição para um modelo regenerativo. Trata-se de uma agenda que articula clima, economia e justiça social e que coloca o Brasil diante de uma responsabilidade global.

A aposta na sociobioeconomia, destacam os analistas, não é apenas ambiental. É uma resposta civilizatória à crise climática, capaz de transformar biodiversidade em desenvolvimento sustentável, com inclusão social e respeito aos territórios.

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